D E S C R I P T I O N
Eu ando desconfiada de muitas coisas, mas eu não falo nada, fico quieta, guardo para mim mesma. Sei que isso machuca, mas eu finjo que está tudo bem. Apenas finjo, por que no fundo está tudo destruído. Eu queria que tudo voltasse a ser como antes, mas é a vida !
+ L I N K S

EU TENHO CIÚME PRA DAR , VENDER , E ATÉ EMPRESTAR.


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Marcha das Vadias de Brasília 2012. Foto de Bruna Cravos no Facebook, link original.


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O assunto: Marcha das Vadias


O que é bonito pode ser mostrado?

Foi como passar de um ambiente escuro a um ambiente claro de sopetão: meus olhos levaram um tempo para se acostumar com as fotos da Marcha das Vadias, que aconteceu no último domingo, em Porto Alegre. Nelas, centenas de mulheres – e alguns homens – ostentavam pintados em seus corpos e em cartazes protestos dos mais diversos, desde o grito pela liberdade da mulher de vestir o que bem entende até o direito ao tabu-mor da nossa sociedade, o aborto.

Para quem não estava ciente do que se tratava até o título pareceu ultrajante. Não foi o meu caso, que já conhecia o movimento e sabia que o batizado da marcha havia sido referente ao comentário (muito) infeliz de um policial de Toronto, tempos atrás: ‘o estupro poderia ser evitado se as mulheres não se vestissem como vadias’. Munidas de ironia e coragem, desde 2011 acontece a Marcha das Vadias, mundial e anualmente. Porto Alegre não foi diferente.  

Porém foi ao ler as mensagens pintadas nos peitos, costas, pernas destas mulheres que fiquei chocado: ‘tire o seu rosário do meu ovário’, ‘meu corpo, minha vida, dou para quem eu quiser’, ‘nem puta nem santa: livre’. Aquilo me pareceu tão diferente de tudo que havia lido até hoje, tão pesado, que precisei de um tempo para organizar as ideias. Foi quando tive uma catarse: esse tempo que levei para me acostumar com aquelas frases pintadas a batom era diretamente proporcional ao quanto sou o resultado de uma sociedade machista. Ao longo de todas as fotos fiz cara de espanto e, pouco tempo depois, cheguei à conclusão de que todas as mensagens tinham um caráter tão óbvio quanto 2+2 são quatro. Aquelas mulheres estavam marchando pelo direito de serem, err, mulheres! Nenhuma, sem exceção, estava lutando por um direito infundado: vestir shortinho, dar para quem bem entender, fim do estupro? Tudo tão fundamental que chegava a ser primitivo.

Meu segundo pensamento, ou melhor, indagação, foi se a maneira com que aquelas mulheres escolheram para demonstrar seus descontentamentos à sociedade era correto. Em plena praça, além de levarem as mensagens, as meninas levavam também uma dose considerável de peitos e bundas à mostra. Foi estranho. Não estamos acostumados a lidar com a nudez feminina fora do caráter propaganda de cerveja/Playboy – e era justamente neste ponto que a Marcha queria tocar: o quanto a nudez feminina incomoda? Ou atiça? Ou causa polêmica? E se aquelas pessoas fossem homens, lutando pelo direito de usar regata sem serem vítimas de estupro ou de escolher quantas parceiras sexuais podem ter? Seria tão desconfortável?

O que ficou na minha cabeça por muito tempo, muito mais do que a nudez ou os direitos foi o fato de eu, que me considerava tão ‘cabeça-aberta’, ter me ultrajado, nem que fosse por alguns segundos, com reivindicações tão óbvias quanto essas.

E foi aí que entendi a real proposta da Marcha: perceba o quanto o teu pensamento é equivocado e ultrapassado. E mude-o.

(fonte da imagem)


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