
O assunto: Marcha das Vadias
O que é bonito pode ser mostrado?
Foi como passar de um ambiente escuro a um ambiente claro de sopetão: meus olhos levaram um tempo para se acostumar com as fotos da Marcha das Vadias, que aconteceu no último domingo, em Porto Alegre. Nelas, centenas de mulheres – e alguns homens – ostentavam pintados em seus corpos e em cartazes protestos dos mais diversos, desde o grito pela liberdade da mulher de vestir o que bem entende até o direito ao tabu-mor da nossa sociedade, o aborto.
Para quem não estava ciente do que se tratava até o título pareceu ultrajante. Não foi o meu caso, que já conhecia o movimento e sabia que o batizado da marcha havia sido referente ao comentário (muito) infeliz de um policial de Toronto, tempos atrás: ‘o estupro poderia ser evitado se as mulheres não se vestissem como vadias’. Munidas de ironia e coragem, desde 2011 acontece a Marcha das Vadias, mundial e anualmente. Porto Alegre não foi diferente.
Porém foi ao ler as mensagens pintadas nos peitos, costas, pernas destas mulheres que fiquei chocado: ‘tire o seu rosário do meu ovário’, ‘meu corpo, minha vida, dou para quem eu quiser’, ‘nem puta nem santa: livre’. Aquilo me pareceu tão diferente de tudo que havia lido até hoje, tão pesado, que precisei de um tempo para organizar as ideias. Foi quando tive uma catarse: esse tempo que levei para me acostumar com aquelas frases pintadas a batom era diretamente proporcional ao quanto sou o resultado de uma sociedade machista. Ao longo de todas as fotos fiz cara de espanto e, pouco tempo depois, cheguei à conclusão de que todas as mensagens tinham um caráter tão óbvio quanto 2+2 são quatro. Aquelas mulheres estavam marchando pelo direito de serem, err, mulheres! Nenhuma, sem exceção, estava lutando por um direito infundado: vestir shortinho, dar para quem bem entender, fim do estupro? Tudo tão fundamental que chegava a ser primitivo.
Meu segundo pensamento, ou melhor, indagação, foi se a maneira com que aquelas mulheres escolheram para demonstrar seus descontentamentos à sociedade era correto. Em plena praça, além de levarem as mensagens, as meninas levavam também uma dose considerável de peitos e bundas à mostra. Foi estranho. Não estamos acostumados a lidar com a nudez feminina fora do caráter propaganda de cerveja/Playboy – e era justamente neste ponto que a Marcha queria tocar: o quanto a nudez feminina incomoda? Ou atiça? Ou causa polêmica? E se aquelas pessoas fossem homens, lutando pelo direito de usar regata sem serem vítimas de estupro ou de escolher quantas parceiras sexuais podem ter? Seria tão desconfortável?
O que ficou na minha cabeça por muito tempo, muito mais do que a nudez ou os direitos foi o fato de eu, que me considerava tão ‘cabeça-aberta’, ter me ultrajado, nem que fosse por alguns segundos, com reivindicações tão óbvias quanto essas.
E foi aí que entendi a real proposta da Marcha: perceba o quanto o teu pensamento é equivocado e ultrapassado. E mude-o.